O Baile

06-04-2023

Eu acabara de chegar ao baile. Os burgueses casais redopiavam em pares, o calor do gás preenchia o salão, os alaranjados candeeiros reluziam. Algumas parelhas riam, outras trocavam olhares penetrantes, alguns ousavam aproximar os rostos, balbuciando coisas que não posso escrever em respeito aos moralistas. No meio do salão, uma grande dourada escadaria que subia em direção ao segundo andar. Ao canto, violinos ressoavam melodiosas valsas, acompanhadas de toda uma rica e glamurosa orquestração. Em suma, uma maçada. Pus-me num canto, recostado sob o preguiçoso umbral da porta de serviços. Lembro-me que usava um fato azul-marinho de pinguim, tinha cavanhaque estava bem feito, o cabelo bem asseado, e o colarinho branco embalsamado com lavanda suave. Confesso: estava entediado.

Até que, próximo da meia-noite, delicadamente, desceu da escadaria uma dama; diziam-me ser Carol de Castro, dona da sumptuosa mansão, filha do primeiro-ministro. Todo o baile parou, e eu, curioso, arregalei os olhos em direção a cachopa. Ela, vinha ornada com um mavioso vestido rosa. Seus lindos e longos cabelos vinham amarrados e delicadamente trançados sobre a sua cabeça. Lembro-me, mas não tenho a certeza, que me fitou. Olhou-me profundamente nos luzeiros, com os seus dois enormes olhos castanhos. Invejosos acusar-me-ão de falsário, pois a porta sobre a qual estava recostado, estava a um tiro de arco de distância da escadaria do salão. Eu, porém, digo-vos: detalhes, e não se primam nos detalhes.

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