Análise e Crítica do Conto “Por um Momento”

Fabiano Gimenez Junior
O Texto:
[1] De repente, todo o mundo parou. As pessoas menearam a cabeça e piscaram os olhos e souberam que se esqueceram. Não sabiam, por certo, o que fugiu-lhes à memória, mas havia algo de importante que deixaram passar; que, subitamente, não podiam mais se dar conta. Era uma espátula ou um cinzel ou uma caneta ou bisturi em mãos que já não fazia sentido de estar ali, e quem estava ali não encontrava explicação do porquê estar com tais instrumentos em um ato interrompido de cortar, apertar, registrar, suturar.
[2] Então, Xavier entrou na sala de amor e sabedoria e sabia que tinha se esquecido e sabia o que se esqueceu. Ele disse ao seu companheiro que o desconhecia.
[3] — Lembra-te e te esforces para não esquecer. Encontrei muitos brasilianos como eu e você que já não se lembram de mais nada. Eu mesmo tenho que fazer o esforço que não é natural para apreender as coisas e encaixa-las em seu campo natural.
[4] Seu companheiro olhou-o com espanto e disse:
[5] — O que és tu?
[6] Xavier deixou-o e foi em direção às coisas na prateleira, no lugar de colocar as coisas que estavam postas lá, pegou um livro e quando o olhou não reconheceu as palavras.
[7] — Lembro-me que sabia como decifrava estas palavras, mas agora não sei o seu significado, mas ainda preservo a memória do que comunicam.
[8] Lá
fora, todos olhavam para as mãos e para o céu, como quem acaba de acordar de um
pesadelo. E todos os acidentes aconteceram ao mesmo tempo, e muitos outros
foram anunciados para ninguém que soubesse como evitá-los.
[9] E o companheiro disse-lhe:
[10] — Esqueça isso e deixe essa coisa de abrir e fechar aí, não temos nada a ganhar com essa coisa de abrir e fechar.
[11] Seu companheiro cerrou fortemente os olhos, tentando encontrar significado para sua vida e não falou mais nenhuma palavra e nem emitiu mais nenhum som.
[12] Xavier abriu a boca porque já não sabia o próprio nome e nem o que estava fazendo ali e nem o que realmente esquecera; desconhecia tudo sobre o mundo e tinha um olhar apoplético e babava de raiva, porque a existência era-lhe sofrida e incômoda. Atacou seu companheiro por pensar ser ele um inimigo e que aquele lugar era-lhe território. Com dentadas, arrancou-lhe carne do pescoço e amputou-lhe os dedos.
[13] Por um momento, Xavier foi o homem mais inteligente do mundo, simplesmente por ter esquecido mais devagar.
Comentário:
[Localização] Este é um conto do escritor mineiro Nathan A. M. Pegoritti.
[Assunto] Num mundo onde todos derrepente esquecem-se de tudo, um homem, que se olvida das coisas mais lentamente do que os demais, percebe-se do ocorrido e esforça-se para recordar-se daquilo que se esquecera. Assim, entra num local e dialóga com um outra pessoa que já se esquecera de quase tudo, até que, em dado momento, ele também se deslembra completamente, reduzindo-se a instintiva animalidade, atacando o companheiro, devora-o.
[Tema] A tentativa de um homem que, em um mundo onde todos abruptamente deslembram-se de tudo, ao se deparar com o completo esquecimento, esforça-se para recordar-se daquilo que se olvidadara.
[Estrutura] Este conto divide-se em quatro partes: Parte A) Introdução — Abruptamente todos se esquecem de tudo (1° parágrafo); parte B) Xavier dialoga com outro sujeito, esforçando-se para lembrar-se (2°-11° parágrafo); parte C) Xavier, por fim, esquece-se de tudo e ataca o companheiro (12° parágrafo); parte D) Nota final do narrador (14° parágrafo).
[Análise] Parte A:
O conto abre ex abrupto: De repente, todo o mundo parou. O prólogo prende imediatamente a atenção do leitor com a locução adverbial de modo: “De repente”. Sem qualquer síntese dramática ou explicação do porquê isto ocorre, o narrador anuncia a nota principal do texto: “todo o mundo parou”. Neste exato momento, o leitor põe-se em alerta: “Por que parou!?”, “O que aconteceu para que o mundo todo parasse!?”. Desta forma, o contista inicia a obra logrando o primeiro grande desafio de escritores do gênero: prender a atenção do leitor logo nas primeiras linhas (neste caso, na primeira oração).
As pessoas menearam a cabeça e piscaram os olhos e souberam que se esqueceram. Confusas, assim como leitor durante todo o decorrer da narrativa, as personagens veem-se perdidas e aflitas. Em seguida, é-nos anunciado o motivo: “souberam que se esqueceram”. Há um interessante jogo verbal neste período, afinal, soaria muito mais natural e comum dizer: “perceberam-se que se esqueceram” do que “souberam”, pois, perceber, segundo o Dicionário Cigalla, significa “intuir, captar”, em contrapartida, saber, segundo o Dicionário Universal da Língua Portuguesa, significa “ter conhecimento, entendimento, consciência”.
Além disso, há, neste período, a presença de um polissíndeto com a conjunção “e” que dá ao texto um estilo bíblico, conforme consta Celso Cunha em sua gramática: “interpenetram-se os elementos coordenados; a expressão adquire assim uma continuidade, uma fluidez, que a tornam particularmente apta para sugerir movimentos ininterruptos ou vertiginosos”.
Não sabiam, por certo, o que fugiu-lhes à memória, mas havia algo de importante que deixaram passar; que, subitamente, não podiam mais se dar conta. Ainda, não haviam se esquecido de tudo, mas de “algo de importante”. Ademais, é perceptível um certo grau de tautologia no período, como se o narrador também estivesse sendo afetado pelo esquecimento que acometeu as personagens. Este recurso será utilizado diversas vezes pelo contista no desenvolver da ação, conforme veremos adiante.
Era uma espátula ou um cinzel, ou uma caneta, ou bisturi em mãos [...]. Neste período há, novamente, o uso do polissíndeto, desta vez, com a conjunção “ou”, gerando, novamente, a sensação de movimento ininterrupto. Nesta enumeração, encontramos objetos de trabalho de algumas profissões distintas com pouca ou nenhuma relação entre si, evidenciando-nos a globalidade e abrangência do acontecimento.
[...] que já não fazia sentido de estar ali, e quem estava ali não encontrava explicação do porquê estar com tais instrumentos[...]. Progressivamente, por meio de pequenas e sutis tautologias como esta, percebemos que não só as personagens são afetadas pela narrativa, mas, também, o narrador, quebrando a velha noção de narrador como ser metafísico, completamente apartado da história, como quem olha de fora, nunca afetado diretamente pelos efeitos dela. Isto concede mais realismo e verosimilhança a narrativa, além de reforçar o efeito do esquecimento.
[...] em um ato interrompido de cortar, apertar, registrar, suturar. Ao contrário das passagens anteriormente analisadas onde temos a presença frequente do polissídento, nesta encontra-se o recurso assíndeto, que concede ritmo acelerado a enumeração.
Parte B:
Assim, sem qualquer tipo de síntese dramática, descrição prosopográfica ou psicológica, somos apresentados ao protagonista: Então, Xavier entrou na sala de amor e sabedoria [...]. Esta é uma frase extremamente difícil de se interpretar, porquanto, ao sermos apresentados ao espaço no qual decorrerá toda a ação, nenhuma informação nos é dada do que é, de fato, esta tal sala.
[...] e sabia que tinha se esquecido e sabia o que se esqueceu. Xavier, assim como as demais pessoas, sabia que se esquecera, entretanto, “sabia o que se esqueceu”. Este período carrega consigo um paradoxo, visto que, quando sabemos o que esquecemos, já não mais nos esquecemos. De tal modo, o narrador demonstra-nos que os efeitos do esquecimento em Xavier diferem daqueles sofridos pelos demais personagens.
Ele disse ao seu companheiro que o desconhecia. Mais uma vez, temos o uso de termos conflitantes e paradoxais, uma vez que, como alguém pode ser seu companheiro se o desconhece? Será que era companheiro, porém, devido aos efeitos do esquecimento já não mais o conhece? Ou será que nunca foram de fato companheiros, no sentido de camaradas, mas, sim, companheiros, no sentido de estarem um na companhia do outro? Essa ambiguidade gerada pelo jogo de palavras é uma evidência da confusão mental instalada no ambiente. Além do mais, somos apresentados a segunda personagem do conto, isto é, “o companheiro”, que não tem nome, ou seja, não tem identidade. Representa, de certa forma, a massa, os demais figurantes que compõem o cenário social da obra.
— Lembra-te e te esforces para não esquecer [...] Eu mesmo tenho que fazer o esforço que não é natural para apreender as coisas e encaixa-las em seu campo natural. Neste parágrafo, temos a enunciação do tema, pois, nos é mostrado o conflito interior sentido por Xavier ao relutar contra o esquecimento. Além do mais, lemos mais uma referência espacial indireta na fala de Xavier, que diz: “Encontrei muitos brasilianos como eu e você que já não se lembram de mais nada”. Aqui, não só descobrimos que a história se passe algures no Brasil, como também, que as duas personagens são brasileiras.
Seu companheiro olhou-o com espanto e disse. O modificador verbal “com espanto”, provoca-nos tenção, como forma catalisadora da pergunta: “Por que ele se espantou?”.
— O que és tu?. A pergunta é periclitante, afinal, o companheiro não lhe questiona quem ele é, mas sim, o que ele é, ou seja, já não sabia sequer o que era um ser humano. Este excerto evidencia-nos que o esquecimento é progressivo e culminante, produzindo um tipo de demência nos indivíduos acometidos por ele.
Xavier deixou-o e foi em direção às coisas na prateleira, no lugar de colocar as coisas que estavam postas lá, pegou um livro e quando o olhou não reconheceu as palavras. Outra vez, temos uma tautologia proposital do autor: “prateleira, no lugar de colocar as coisas que estavam postas lá”. Ademais, apesar de Xavier não ter o olvidamento tão desenvolvido quanto o seu companheiro, já nos é anunciada a sua progressão.
Em seguida, o texto demonstra-nos, na prática, o que foi dito anteriormente pelo narrador: “ [...] e sabia que tinha esquecido”, em: “— Lembro-me que sabia como decifrava estas palavras, mas agora não sei o seu significado” e “sabia o que se esqueceu.” em: “mas ainda preservo a memória do que comunicam”.
Lá fora, todos olhavam para as mãos e para o céu, como quem acaba de acordar de um pesadelo. O diálogo é entrecortado abruptamente para uma narração da situação “lá fora”. Reduzidos a um estado de quase demência, as pessoas passam a contemplar o mundo em derredor assustadas, o uso da comparação “como quem acaba de acordar de um pesadelo”, enfatiza essa ideia.
E todos os acidentes aconteceram ao mesmo tempo, e muitos outros foram anunciados para ninguém que soubesse como evitá-los. O uso do advérbio “ninguém”, ao invés do convencional “alguém”, é irônico, na medida em que, devido ao olvidamento, já não mais havia ninguém que soubesse como evitar os acidentes.
— Esqueça isso e deixe essa coisa de abrir e fechar aí, não temos nada a ganhar com essa coisa de abrir e fechar. O esquecimento já avançou tanto que o companheiro não mais reconhece o livro e redu-lo, simplesmente, a sua ação mecânica: “abrir e fechar”.
Seu companheiro cerrou fortemente os olhos, tentando encontrar significado para sua vida e não falou mais nenhuma palavra e nem emitiu mais nenhum som. Mediante o esquecimento total a personagem submete-se num estado catatônico e apático.
Parte C
Afinal, Xavier “já não sabia o próprio nome e nem o que estava fazendo ali e nem o que realmente esquecera; desconhecia tudo sobre o mundo e tinha um olhar apoplético e babava de raiva”. Colérico por não entender o mundo ao seu redor, reação distoa da de seu companheiro que entra em estado vegetativo, após esquecer-se de tudo, conforme: “porque a existência era-lhe sofrida e incômoda”.
Reduzido a um estado animalesco, após esquecer-se até mesmo da sua humanidade, Xavier “Atacou seu companheiro por pensar ser ele um inimigo e que aquele lugar era-lhe território. Com dentadas, arrancou-lhe carne do pescoço e amputou-lhe os dedos.”. Assim, a ação atinge o epílogo chocante e inesperado, comumente denominado “estralo de chicote”.
Parte D:
Ao cabo, a narração encerra a obra com uma dissertação irônica, retomando a temática inicial da obra: “Por um momento, Xavier foi o homem mais inteligente do mundo, simplesmente por ter esquecido mais devagar.”. Lembrando-me, vagamente, aquela máxima popular: “em terra de cego, caolho é rei”.
[Balanço e Impressão Pessoal]
Com uma grande objetividade, sem digressões e hermetismos pelo texto, o autor logra o objetivo, com uma linguagem plástica e sem rendilhados. A nota de esquecimento é comunicada por meio de uma série de recursos estilísticos frequentes e pouco convencionais, como jogos de palavras e tautologias. A narrativa é dinâmica e ininterrupta, possui um ritmo delicioso e inebriante que nos faz sempre questionar: “E agora?”, para tal, utilizou-se de recursos expressivos sintáticos com maestria e habilidade. A atenção do leitor é apreendida com sucesso desde o princípio. Toda a ação converge para o epílogo que surpreende e arrebata o leitor — lembrou-me vagamente o conto A Cartomante de Machado de Assis.
Em suma, o conto agradou-me muitíssimo, principalmente pelas diversas técnicas utilizadas que geram um clima de confusão mental e esquecimento. Ademais, a plasticidade da linguagem e a unidade total do conto agradam-me profundamente. Em nenhum momento o autor perde a mão e deixa-se levar pela imaginação com digressões e firulas para enfeitar o texto. Todos os ornamentos e figuras de linguagem estão bem posicionados e servem para criar o clima evocado pelo Tema. Afinal, um dos grandes contistas da língua portuguesa.
Bibliografia:
CALDERON, Evaristo C. & CARRETER, Fernando L. Cómo se Comenta un Texto Literario. 28. ed. Madrid: Catedra, 2006.
CUNHA, Celso & CINTRA, Lindley. Nova Gramatica do Português Contemporâneo. 1. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
Dicionário Universal Língua Portuguesa – Revista Actualizada. 8. ed. Lisboa: Texto, 2005.
MOISÉS, Massaud. Análise Literária, 19ª ed. São Paulo: Cultrix, 2014
— A Criação Literária – Prosa I. 21. ed. São Paulo: Cultrix, 2007.
SCOTTINI, Alfredo. Scottini – Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. 1. ed. Gaspar: Todolivro, 2017.
